Ronald Mansur
Protestar é a primeira ação que tenho a fazer neste momento em que o povo do Líbano é massacrado pela máquina de guerra do Estado de Israel, leia-se Estados Unidos. A fundamentação religiosa que querem dar ao conflito é pura fantasia. O interesse é econômico, ligado ao petróleo e ao comércio internacional, pouco tem relação com a questão religiosa.
Convido os descendentes de libaneses a se manifestarem, porque é o nosso sangue que está sendo derramado. Os nossos antepassados têm pouco mais de 100 anos que chegaram ao Brasil, vieram em busca de paz e futuro. Vieram empurrados pela cavalaria do Império Turco Otomano. Hoje são os tanques e os aviões de Israel/Estados Unidos, que jogam toneladas de fogo da morte. Objetivo é eliminar os libaneses e atrair os demais árabes para uma armadilha macabra.
Ao colocar na minha varanda a bandeira do Líbano e a faixa LIBANO. VAMOS RESISTIR, é porque a História registra outras tentativas de destruir o povo libanês. Não acredito em destino, mas o povo libanês parece ter a sina de ter de reconstruir sempre. A tolerância é a nossa arma, porque não somos únicos, somos plurais. O povo que habita o Líbano tem alguns milhares de anos.
A prepotência, a arrogância e o orgulho cego de quem hoje nos joga bombas, parece ter esquecido a segunda Guerra Mundial, ou, foi o melhor e mais aplicado aluno do demônio do nazismo.
Somos milhões no Brasil.Somos milhares no Espirito Santo.Temos de ajudar a salvar o Líbano, mas o primeiro passo neste sentido é termos a História de nossa familia e de nossa comunidade salvas e conhecidas.
Me alegro em ser descendente de Francisco Maronilo Mansur, que em 1883 deixou sua familia e sua comunidade, Zgharta, no norte do Líbano e veio para o Brasil, como milhares de brimos e brimas, morreu em Muniz Freire em 12 de dezembro de 1931.
Sem ser fatalista, já tenho programada uma nova faixa, que espero colocar na minha varanda o mais rápido possível. Já, inclusive, separei alguns reais para mandar confeccioná-la, com os dizeres: LIBANO. VAMOS RECONSTRUIR.
domingo, julho 23, 2006
quarta-feira, março 22, 2006
JORNALISTA NÃO BOTA GRAMPO EM NINGUÉM
Suzana Tatagiba, presidente do Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo
Há dois meses o Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo e Federação Nacional dos Jornalistas - ( FENAJ) denunciaram escutas telefônicas ilegais na Rede Gazeta feitas através do sistema Guardião, que pertence à secretaria de Segurança Pública do Estado. Após esses 60 dias nada, ou praticamente nada, de novo foi descoberto pelo inquérito da Polícia Civil. A conclusão do inquérito é de que a culpa é mesmo do pobre do mordomo. Ou seja, quem levou policiais, Ministério Público e o Poder Judiciário ao erro foi a empresa de telefonia móvel Vivo. Um funcionário da empresa, descuidado, diga-se de passagem, trocou os números e olhe só!: induziu todo mundo a um erro que se repetiu por três vezes. Por três vezes o sistema Guardião “grampeou” um número de telefone ligado à central telefônica da Rede Gazeta, essa escuta permitia acesso a todos os ramais da rede telefônica da empresa. Durante estes três períodos de “erro” as conversas de 200 jornalistas foram ouvidas e gravadas pelo sistema Guardião. E aí?
Aí, é que além do mordomo também devem pagar o pato os jornalistas. Através de um projeto do Executivo começam os debates em torno da aprovação de uma lei que proíbe o monitoramento de conversas entre os jornalistas e suas fontes. Mas isso já é proibido! A Constituição Federal, no capítulo Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, artigo 5º, inciso XIV, diz o seguinte: é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional. E o sigilo da fonte é o nosso compromisso de trabalho com a sociedade. E esse compromisso foi ilegalmente rompido, aviltado e ignorado pelos Poderes Capixabas. O inquérito da Polícia Civil só deixou perguntas sem respostas, quem grampeou? por que grampeou? e para que grampeou?
O projeto do Governo Lula, que já está sendo formatado na Casa Civil e vai para o Congresso Nacional também prevê multas e prisão para jornalistas que publicarem trechos de conversas obtidas através de escutas telefônicas, mesmo as autorizadas pela justiça e também para quem gravar conversas com os entrevistados sem o conhecimento do interlocutor, mas, como diz o professor Carlos Manoel Chaparro, em artigo publicado no Portal Comunique-se. “não precisamos de novas leis para proteger a inviolabilidade das comunicações telefônicas. Há leis suficientes para processar, julgar e condenar não só os jornalistas que violam segredos de justiça ou que atacam a honra alheia com a transcrição de gravações clandestinas, mas também os delegados, promotores e juízes que, levianamente, ou por interesses não revelados, espalham ao vento, pela imprensa, as conversas gravadas, jogando no lixo o segredo de justiça pelo qual deveriam zelar”.
É importante debater e sempre lembrar que os jornalistas não estão acima da lei, portanto todos devem trabalhar com responsabilidade ética e social, mas também devemos sempre deixar claro que os jornalistas não colocam grampo em ninguém. E voltando ao professor Chaparro, “e se há crime na divulgação jornalística de gravações ( é há), ele tem um percurso que se inicia bem antes das cópias chegarem às redações”.
Há dois meses o Sindicato dos Jornalistas do Espírito Santo e Federação Nacional dos Jornalistas - ( FENAJ) denunciaram escutas telefônicas ilegais na Rede Gazeta feitas através do sistema Guardião, que pertence à secretaria de Segurança Pública do Estado. Após esses 60 dias nada, ou praticamente nada, de novo foi descoberto pelo inquérito da Polícia Civil. A conclusão do inquérito é de que a culpa é mesmo do pobre do mordomo. Ou seja, quem levou policiais, Ministério Público e o Poder Judiciário ao erro foi a empresa de telefonia móvel Vivo. Um funcionário da empresa, descuidado, diga-se de passagem, trocou os números e olhe só!: induziu todo mundo a um erro que se repetiu por três vezes. Por três vezes o sistema Guardião “grampeou” um número de telefone ligado à central telefônica da Rede Gazeta, essa escuta permitia acesso a todos os ramais da rede telefônica da empresa. Durante estes três períodos de “erro” as conversas de 200 jornalistas foram ouvidas e gravadas pelo sistema Guardião. E aí?
Aí, é que além do mordomo também devem pagar o pato os jornalistas. Através de um projeto do Executivo começam os debates em torno da aprovação de uma lei que proíbe o monitoramento de conversas entre os jornalistas e suas fontes. Mas isso já é proibido! A Constituição Federal, no capítulo Dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos, artigo 5º, inciso XIV, diz o seguinte: é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte quando necessário ao exercício profissional. E o sigilo da fonte é o nosso compromisso de trabalho com a sociedade. E esse compromisso foi ilegalmente rompido, aviltado e ignorado pelos Poderes Capixabas. O inquérito da Polícia Civil só deixou perguntas sem respostas, quem grampeou? por que grampeou? e para que grampeou?
O projeto do Governo Lula, que já está sendo formatado na Casa Civil e vai para o Congresso Nacional também prevê multas e prisão para jornalistas que publicarem trechos de conversas obtidas através de escutas telefônicas, mesmo as autorizadas pela justiça e também para quem gravar conversas com os entrevistados sem o conhecimento do interlocutor, mas, como diz o professor Carlos Manoel Chaparro, em artigo publicado no Portal Comunique-se. “não precisamos de novas leis para proteger a inviolabilidade das comunicações telefônicas. Há leis suficientes para processar, julgar e condenar não só os jornalistas que violam segredos de justiça ou que atacam a honra alheia com a transcrição de gravações clandestinas, mas também os delegados, promotores e juízes que, levianamente, ou por interesses não revelados, espalham ao vento, pela imprensa, as conversas gravadas, jogando no lixo o segredo de justiça pelo qual deveriam zelar”.
É importante debater e sempre lembrar que os jornalistas não estão acima da lei, portanto todos devem trabalhar com responsabilidade ética e social, mas também devemos sempre deixar claro que os jornalistas não colocam grampo em ninguém. E voltando ao professor Chaparro, “e se há crime na divulgação jornalística de gravações ( é há), ele tem um percurso que se inicia bem antes das cópias chegarem às redações”.
sábado, fevereiro 11, 2006
DE FORA PARA DENTRO: REUNIÃO DE PAUTA DO JORNAL NACIONAL
Sérgio Denicoli (*)
(Texto publicado no Observatório da Imprensa)
Sexta-feira, dia 9 de dezembro, 14h30. Está começando mais uma reunião de pauta do Jornal Nacional. Ao redor da mesa, numa sala envidraçada no meio da redação, os editores do telejornal discutem com atenção os acontecimentos do dia, tendo à cabeceira o editor-chefe William Bonner.
Eu havia chegado de Portugal e visitava a Globo como pesquisador da Universidade do Minho. Estava ali para fazer entrevistas com os profissionais da emissora, com o intuito de dar andamento a uma pesquisa acadêmica.
Antes de a reunião começar, Bonner havia sido consultado sobre minha participação, e não se opôs. Seria eu o primeiro jornalista não pertencente à equipe a acompanhar as discussões sobre a pauta do JN após a revista CartaCapital ter publicado a polêmica matéria criticando Bonner (veja aqui) e afirmando, em tom pejorativo, que ele comparava os telespectadores ao Homer Simpson – o preguiçoso e limitado personagem do desenho animado Os Simpsons. A matéria da revista surgiu após um grupo de professores de comunicação ter acompanhado justamente a importante reunião.
Bem-humorado, o editor-chefe rege a orquestra de jornalistas com maestria. Democrático, permite a todos opinarem para em seguida tomar as decisões inerentes ao seu cargo, em consenso com sua equipe.
Um dos factuais do dia era a divulgação de uma pesquisa do Ministério da Saúde sobre a vida sexual do jovem brasileiro. Bonner lembra que as crianças também assistem ao JN e não quer causar constrangimentos com um assunto delicado. Decide-se então fazer apenas uma nota sobre o tema, sem a utilização de imagens.
O editor-chefe esclarece ao "estranho" presente na sala que não é conservador, e deixa clara a sua a preocupação com o que chega aos telespectadores. Ele está visivelmente chateado com as críticas que saíram na imprensa e não quer que suas palavras sejam mais uma vez mal interpretadas.
Diz que criou uma pasta em seu computador com o nome Homer. É onde guarda tudo que recebeu via e-mail sobre o assunto. Lembra da solidariedade por parte dos diretores da Globo e demonstra estar confortado com a confiança de quem sabe que o que é feito ali tem como foco principal o público.
Requisitos essenciais
Perto do término da reunião chega a informação que o presidente Lula havia classificado a oposição brasileira de golpista, numa comparação aos opositores de Hugo Chávez, na Venezuela. A notícia havia sido levantada a partir de uma entrevista de Lula à revista CartaCapital. Bonner considera aquela declaração seriíssima e pede um VT sobre o assunto. Lembra aos editores que citem a CartaCapital e dá uma aula de como se faz jornalismo sem misturar questões pessoais com profissionais. É um tapa de luva em seus críticos.
Encerrada a reunião, ainda na sala, um dos jornalistas sugere um "bolão" para apostas em torno dos nomes das seleções que o Brasil irá enfrentar na primeira fase da Copa do Mundo.
No Jornal Nacional o ambiente é como em qualquer outra redação onde se trabalha muito, com seriedade, e onde a descontração e as brincadeiras entre os colegas são requisitos essenciais para que todos produzam com qualidade. Homer, Dona Maria e o Seu Doutor agradecem.
(*) Jornalista e pesquisador de mídias da Universidade do Minho, em Braga (Portugal)
(Texto publicado no Observatório da Imprensa)
Sexta-feira, dia 9 de dezembro, 14h30. Está começando mais uma reunião de pauta do Jornal Nacional. Ao redor da mesa, numa sala envidraçada no meio da redação, os editores do telejornal discutem com atenção os acontecimentos do dia, tendo à cabeceira o editor-chefe William Bonner.
Eu havia chegado de Portugal e visitava a Globo como pesquisador da Universidade do Minho. Estava ali para fazer entrevistas com os profissionais da emissora, com o intuito de dar andamento a uma pesquisa acadêmica.
Antes de a reunião começar, Bonner havia sido consultado sobre minha participação, e não se opôs. Seria eu o primeiro jornalista não pertencente à equipe a acompanhar as discussões sobre a pauta do JN após a revista CartaCapital ter publicado a polêmica matéria criticando Bonner (veja aqui) e afirmando, em tom pejorativo, que ele comparava os telespectadores ao Homer Simpson – o preguiçoso e limitado personagem do desenho animado Os Simpsons. A matéria da revista surgiu após um grupo de professores de comunicação ter acompanhado justamente a importante reunião.
Bem-humorado, o editor-chefe rege a orquestra de jornalistas com maestria. Democrático, permite a todos opinarem para em seguida tomar as decisões inerentes ao seu cargo, em consenso com sua equipe.
Um dos factuais do dia era a divulgação de uma pesquisa do Ministério da Saúde sobre a vida sexual do jovem brasileiro. Bonner lembra que as crianças também assistem ao JN e não quer causar constrangimentos com um assunto delicado. Decide-se então fazer apenas uma nota sobre o tema, sem a utilização de imagens.
O editor-chefe esclarece ao "estranho" presente na sala que não é conservador, e deixa clara a sua a preocupação com o que chega aos telespectadores. Ele está visivelmente chateado com as críticas que saíram na imprensa e não quer que suas palavras sejam mais uma vez mal interpretadas.
Diz que criou uma pasta em seu computador com o nome Homer. É onde guarda tudo que recebeu via e-mail sobre o assunto. Lembra da solidariedade por parte dos diretores da Globo e demonstra estar confortado com a confiança de quem sabe que o que é feito ali tem como foco principal o público.
Requisitos essenciais
Perto do término da reunião chega a informação que o presidente Lula havia classificado a oposição brasileira de golpista, numa comparação aos opositores de Hugo Chávez, na Venezuela. A notícia havia sido levantada a partir de uma entrevista de Lula à revista CartaCapital. Bonner considera aquela declaração seriíssima e pede um VT sobre o assunto. Lembra aos editores que citem a CartaCapital e dá uma aula de como se faz jornalismo sem misturar questões pessoais com profissionais. É um tapa de luva em seus críticos.
Encerrada a reunião, ainda na sala, um dos jornalistas sugere um "bolão" para apostas em torno dos nomes das seleções que o Brasil irá enfrentar na primeira fase da Copa do Mundo.
No Jornal Nacional o ambiente é como em qualquer outra redação onde se trabalha muito, com seriedade, e onde a descontração e as brincadeiras entre os colegas são requisitos essenciais para que todos produzam com qualidade. Homer, Dona Maria e o Seu Doutor agradecem.
(*) Jornalista e pesquisador de mídias da Universidade do Minho, em Braga (Portugal)
JORNALISMO DIGITAL A INTERNET E O DECLÍNIO DOS JORNAIS
Daniela Bertocchi e Sergio Denicoli, de Braga (Portugal) (*)
(Texto publicado no Observatório da Imprensa)
"Ainda não é o momento de obter lucro com jornalismo na internet, é hora de investir." A frase, dita pelo jornalista e professor da Universidade do Texas Rosental Calmon Alves, ecoou forte no auditório da Universidade do Minho, em Braga, Portugal, durante as Jornadas dos Dez Anos de Jornalismo Digital em Portugal.
Experiente homem de imprensa, Rosental profetiza o fim do jornal de papel tal como o conhecemos. E provoca: "O futuro é a internet. Não podemos ter medo de canibalizar o jornal. Ele vai afundar. É o que chamo de mediacídio: a morte lenta da mídia tradicional. E não estou preocupado com o fim do jornal. Preocupo-me com o futuro do jornalismo".
Rosental faz questão de ressaltar que o desastre provocado pela especulação em torno das ações das empresas pontocom, que desestimulou investimentos na rede, já virou passado e quem continuar no caminho de não investir na web sairá do mercado.
Para ele, as empresas devem entender que o jornal precisa fazer a transição do modelo de produto para o de serviço. "Um produto é algo estático, é uma coisa concreta que você pega e leva para casa, já um serviço é uma coisa dinâmica, que serve ao leitor, no telefone celular, no computador, onde seja que a pessoa quer ter a notícia."
Diretor da Cátedra Knight em Jornalismo, da Universidade do Texas, em Austin (EUA), Rosental também acredita que a mídia precisa aprender a dialogar. "O jornal perdeu o poder de mediação e agora tem que se sujeitar ao julgamento dos milhões de pessoas que estão conectadas e podem ter voz ativa por meio de redes de comunicação", afirma.
O jornalista diz que "hoje os usuários vêem, ouvem e lêem o que querem". O fato de as pessoas poderem escolher onde consumir informação é um enorme desafio e um grande problema para as empresas produtoras de notícias. Elas concorrem com sites que oferecem inúmeras opções, não necessariamente jornalísticas. O grande questionamento que ele deixa é como evitar que a verba publicitária seja desviada para sites que podem ter qualquer tipo de conteúdo. A dúvida ficou no ar, sem resposta.
O balanço dos 10 anos
Jornalistas do mercado, estudantes e acadêmicos portugueses, brasileiros e espanhóis reuniram-se para o balanço do decênio do jornalismo de internet durante as Jornadas dos Dez Anos de Jornalismo Digital em Portugal, promovidas pelos pesquisadores do Mediascópio e do Ciberlab, projetos do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade (Cecs) da Universidade do Minho, em Braga, Portugal.
O evento trouxe para o centro do debate dois expoentes do campo do jornalismo de internet. Para uma perspectiva americana, contou com Rosental Calmon Alves, jornalista brasileiro que desde 1996 leciona Jornalismo Online na Universidade do Texas. E para dar conta do panorama europeu buscou o nome de Ramón Salaverría, professor e diretor do Laboratório de Comunicação Multimídia (MMLab) da Universidade de Navarra, em Pamplona, Espanha. [Ver próximo texto].
O cenário do ciberjornalismo português foi debatido por nomes como os de Hélder Bastos (um dos primeiros jornalistas online de Portugal), António Granado (referência no ciberjornalismo lusitano), José Victor Malheiros (diretor do Público.pt, importante jornal digital do país) e Mário Carvalho, do Expresso Online, que aproveitou e anunciou o lançamento do serviço noticioso "Expresso África" e de um futuro sistema de blogs para os leitores.
Frustrações e novas expectativas
Para boa parte desta malta, talvez uma das maiores frustrações destes 10 anos de jornalismo digital tenha acontecido no âmbito editorial. Muitos dos debatedores concordaram em que pouco se avançou em termos de linguagem ciberjornalística, apesar de insistentes falatórios em torno das potencialidades hipertextuais, interativas e multimidiáticas do meio.
Rosental Calmon Alves chegou a afirmar que o jornalismo digital continua insosso. "Vergonhosamente o que mais vimos foi o shovelware, a simples transposição do conteúdo do papel para o meio online. O jornalismo digital continua preguiçoso e nada criativo. Neste aspecto, os leitores é que estão dando um banho nos jornalistas."
E o que de fato se cumpriu nestes 10 anos? Em uma palavra: personalização. "Os usuários têm incontestavelmente hoje a informação que desejam e da forma e na hora em que desejam", afirmou Ramón Salaverría.
O que ninguém ali no auditório da Universidade do Minho contava em 1995 era com o surgimento dos blogs, wikis e RSS (Really Simple Syndication) da vida que, curiosamente, ao lado do tão alardeado jornalismo participativo, do namoro da internet com a TV e da busca por novos e alternativos modelos de negócio para o setor, foram apontados como elementos indissociáveis do futuro do ciberjornalismo.
Ramón Salaverría arriscou prospecções para este momento: "Daqui para a frente o jornalismo digital será marcado pelo jornalismo participativo, em que surge a figura do cão-de-guarda do cão-de-guarda. O mercado de mídia em geral estará totalmente condicionado pela rede. Tanto em questões de publicidade como de marketing. E acredito que, se de 1995 até 2005 tivemos a web muito próxima da imprensa, muito textual, então, entre 2005 e 2015, veremos a aproximação da web com a TV, em que tudo será muito mais visual".
Para o futuro do jornalismo online em Portugal, o professor Hélder Bastos elaborou uma previsão mais cautelosa: "O cenário do ciberjornalismo [em Portugal] deverá sofrer poucas alterações nos próximos anos". Ele explicou que a realidade portuguesa, à semelhança do que aconteceu no panorama geral, passou pelas fases de nascimento, expansão, retração e estagnação e que agora deverá, com medo de retrair novamente, "observar os próximos acontecimentos globais antes de investir no setor".
(*) Jornalista e pesquisadora de mídias digitais na Universidade do Minho, Portugal (blog Intermezzo); jornalista e pesquisador de mídia internacional na Universidade do Minho, Portugal
(Texto publicado no Observatório da Imprensa)
"Ainda não é o momento de obter lucro com jornalismo na internet, é hora de investir." A frase, dita pelo jornalista e professor da Universidade do Texas Rosental Calmon Alves, ecoou forte no auditório da Universidade do Minho, em Braga, Portugal, durante as Jornadas dos Dez Anos de Jornalismo Digital em Portugal.
Experiente homem de imprensa, Rosental profetiza o fim do jornal de papel tal como o conhecemos. E provoca: "O futuro é a internet. Não podemos ter medo de canibalizar o jornal. Ele vai afundar. É o que chamo de mediacídio: a morte lenta da mídia tradicional. E não estou preocupado com o fim do jornal. Preocupo-me com o futuro do jornalismo".
Rosental faz questão de ressaltar que o desastre provocado pela especulação em torno das ações das empresas pontocom, que desestimulou investimentos na rede, já virou passado e quem continuar no caminho de não investir na web sairá do mercado.
Para ele, as empresas devem entender que o jornal precisa fazer a transição do modelo de produto para o de serviço. "Um produto é algo estático, é uma coisa concreta que você pega e leva para casa, já um serviço é uma coisa dinâmica, que serve ao leitor, no telefone celular, no computador, onde seja que a pessoa quer ter a notícia."
Diretor da Cátedra Knight em Jornalismo, da Universidade do Texas, em Austin (EUA), Rosental também acredita que a mídia precisa aprender a dialogar. "O jornal perdeu o poder de mediação e agora tem que se sujeitar ao julgamento dos milhões de pessoas que estão conectadas e podem ter voz ativa por meio de redes de comunicação", afirma.
O jornalista diz que "hoje os usuários vêem, ouvem e lêem o que querem". O fato de as pessoas poderem escolher onde consumir informação é um enorme desafio e um grande problema para as empresas produtoras de notícias. Elas concorrem com sites que oferecem inúmeras opções, não necessariamente jornalísticas. O grande questionamento que ele deixa é como evitar que a verba publicitária seja desviada para sites que podem ter qualquer tipo de conteúdo. A dúvida ficou no ar, sem resposta.
O balanço dos 10 anos
Jornalistas do mercado, estudantes e acadêmicos portugueses, brasileiros e espanhóis reuniram-se para o balanço do decênio do jornalismo de internet durante as Jornadas dos Dez Anos de Jornalismo Digital em Portugal, promovidas pelos pesquisadores do Mediascópio e do Ciberlab, projetos do Centro de Estudos em Comunicação e Sociedade (Cecs) da Universidade do Minho, em Braga, Portugal.
O evento trouxe para o centro do debate dois expoentes do campo do jornalismo de internet. Para uma perspectiva americana, contou com Rosental Calmon Alves, jornalista brasileiro que desde 1996 leciona Jornalismo Online na Universidade do Texas. E para dar conta do panorama europeu buscou o nome de Ramón Salaverría, professor e diretor do Laboratório de Comunicação Multimídia (MMLab) da Universidade de Navarra, em Pamplona, Espanha. [Ver próximo texto].
O cenário do ciberjornalismo português foi debatido por nomes como os de Hélder Bastos (um dos primeiros jornalistas online de Portugal), António Granado (referência no ciberjornalismo lusitano), José Victor Malheiros (diretor do Público.pt, importante jornal digital do país) e Mário Carvalho, do Expresso Online, que aproveitou e anunciou o lançamento do serviço noticioso "Expresso África" e de um futuro sistema de blogs para os leitores.
Frustrações e novas expectativas
Para boa parte desta malta, talvez uma das maiores frustrações destes 10 anos de jornalismo digital tenha acontecido no âmbito editorial. Muitos dos debatedores concordaram em que pouco se avançou em termos de linguagem ciberjornalística, apesar de insistentes falatórios em torno das potencialidades hipertextuais, interativas e multimidiáticas do meio.
Rosental Calmon Alves chegou a afirmar que o jornalismo digital continua insosso. "Vergonhosamente o que mais vimos foi o shovelware, a simples transposição do conteúdo do papel para o meio online. O jornalismo digital continua preguiçoso e nada criativo. Neste aspecto, os leitores é que estão dando um banho nos jornalistas."
E o que de fato se cumpriu nestes 10 anos? Em uma palavra: personalização. "Os usuários têm incontestavelmente hoje a informação que desejam e da forma e na hora em que desejam", afirmou Ramón Salaverría.
O que ninguém ali no auditório da Universidade do Minho contava em 1995 era com o surgimento dos blogs, wikis e RSS (Really Simple Syndication) da vida que, curiosamente, ao lado do tão alardeado jornalismo participativo, do namoro da internet com a TV e da busca por novos e alternativos modelos de negócio para o setor, foram apontados como elementos indissociáveis do futuro do ciberjornalismo.
Ramón Salaverría arriscou prospecções para este momento: "Daqui para a frente o jornalismo digital será marcado pelo jornalismo participativo, em que surge a figura do cão-de-guarda do cão-de-guarda. O mercado de mídia em geral estará totalmente condicionado pela rede. Tanto em questões de publicidade como de marketing. E acredito que, se de 1995 até 2005 tivemos a web muito próxima da imprensa, muito textual, então, entre 2005 e 2015, veremos a aproximação da web com a TV, em que tudo será muito mais visual".
Para o futuro do jornalismo online em Portugal, o professor Hélder Bastos elaborou uma previsão mais cautelosa: "O cenário do ciberjornalismo [em Portugal] deverá sofrer poucas alterações nos próximos anos". Ele explicou que a realidade portuguesa, à semelhança do que aconteceu no panorama geral, passou pelas fases de nascimento, expansão, retração e estagnação e que agora deverá, com medo de retrair novamente, "observar os próximos acontecimentos globais antes de investir no setor".
(*) Jornalista e pesquisadora de mídias digitais na Universidade do Minho, Portugal (blog Intermezzo); jornalista e pesquisador de mídia internacional na Universidade do Minho, Portugal
COMUNICAÇÃO E LUSOFONIA - AS DIFERENÇAS E OS PONTOS EM COMUM
Sergio Denicoli, de Braga (Portugal) (*)
(Texto publicado no Observatório da Imprensa)
A notícia do diário português Correio da Manhã, às vésperas da classificação da seleção de Angola para a Copa do Mundo, anunciava: "Três vezes Portugal no Mundial da Alemanha". Referia-se à possibilidade de haver, pela primeira vez na história do mundial de futebol, três países de língua portuguesa na competição.
Os angolanos conseguiram a vaga, junto com o Brasil e Portugal. Já a imprensa portuguesa deu mostras de como é construída nos jornais do país a imagem da lusofonia – o universo de nações que têm a língua portuguesa como idioma oficial.
Para debater as diferenças e pontos em comum do espaço lusófono, a Universidade do Minho realizou em 7 de outubro, em Braga, o I Congresso Internacional sobre Comunicação e Lusofonia. O evento foi organizado pelo "Projeto Lusocom: estudo das políticas de comunicação e discursos no espaço lusófono", coordenado pela jornalista e professora Helena Sousa.
Os trabalhos foram abertos pela polêmica apresentação da pesquisadora portuguesa Maria Manuela Batista. Para ela, uma notícia como a do Correio da Manhã seria fruto de uma visão estereotipada por parte da mídia de Portugal que, segundo afirmou, posiciona o país como o centro da lusofonia e como potencial influenciador de suas ex-colônias, retratando os demais países lusófonos como um "jardim colonial" – uma extensão emocional de um passado de conquistas. Seria herança de um pensamento muito estimulado na era do ditador Antonio de Oliveira Salazar (1889-1970).
Moisés Martins, diretor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, destacou em sua apresentação que a lusofonia não se prende a estereótipos e pode ajudar na formação de uma comunidade transnacional, com propósitos político-culturais.
União nacional
É certo afirmar que ainda há um sentimento forte em Portugal em relação ao seu passado histórico, mas é exagero dizer que há uma mídia com visão ainda imperialista. Os portugueses se orgulham das conquistas que tiveram no mundo e do fato de terem levado a língua de sua pátria a vários continentes. Isso tem uma certa influência nos jornais, mas são simbologias mais voltadas para o sentimento de nação de passado glorioso do que uma tentativa de subordinar as ex-colônias. Mesmo porque Portugal é muito aberto às inovações linguísticas por que tem passado a língua portuguesa no mundo.
As telenovelas brasileiras são um exemplo da aceitação da influência vinda de um país que já pertenceu aos portugueses. Desde a década de 1970 elas são exibidas em terras lusitanas sem dublagem ou legendas, e agregam novos vocábulos ao cotidiano de Portugal.
É o contrário do que acontece no Brasil, segundo disseram representantes brasileiros no Congresso. Para eles, a imprensa no país não está atenta à existência de um mundo lusófono, tendo desenvolvido uma linguagem com características próprias e independentes.
Já nos países africanos onde a língua portuguesa é oficial – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe – o português ainda enfrenta obstáculos para se firmar como língua de união nacional. Nesses locais predominam as línguas nativas que coexistem e reforçam valores tribais. O mesmo ocorre no asiático Timor Leste.
Papel primordial
Em Angola, por exemplo, existem 49 dialetos e 19 línguas. As rádios, que compõem a maior força midiática do país, fazem as transmissões em línguas nativas. Em Moçambique, o português é a língua materna de apenas 10% da população – ou outros 90% dos habitantes têm um dos 23 idiomas nativos como língua principal. Em Timor, a escolha pelo português como língua oficial foi uma decisão política, pois era um idioma trazido por estrangeiros e não causaria conflitos como os que ocorreriam se a língua de alguma região local fosse adotada em detrimento de outras. O idioma mais falado pelos timorenses é o tétum.
Estimativas revelam que em todo mundo 200 milhões de pessoas falam português, a maioria brasileiros. Portanto o Brasil tem um papel primordial na construção de um espaço lusófono. Mas o que se percebe é um distanciamento do país do debate sobre a questão, que é praticamente ausente da mídia.
Em tempo: a Academia Brasileira de Letras editou um Vocabulário Ortográfico com novas palavras, que inclui adaptações de vários termos em inglês. É o novo português do backup, byte e do delete.
(*) Jornalista e pesquisador de mídias da Universidade do Minho, em Portugal
(Texto publicado no Observatório da Imprensa)
A notícia do diário português Correio da Manhã, às vésperas da classificação da seleção de Angola para a Copa do Mundo, anunciava: "Três vezes Portugal no Mundial da Alemanha". Referia-se à possibilidade de haver, pela primeira vez na história do mundial de futebol, três países de língua portuguesa na competição.
Os angolanos conseguiram a vaga, junto com o Brasil e Portugal. Já a imprensa portuguesa deu mostras de como é construída nos jornais do país a imagem da lusofonia – o universo de nações que têm a língua portuguesa como idioma oficial.
Para debater as diferenças e pontos em comum do espaço lusófono, a Universidade do Minho realizou em 7 de outubro, em Braga, o I Congresso Internacional sobre Comunicação e Lusofonia. O evento foi organizado pelo "Projeto Lusocom: estudo das políticas de comunicação e discursos no espaço lusófono", coordenado pela jornalista e professora Helena Sousa.
Os trabalhos foram abertos pela polêmica apresentação da pesquisadora portuguesa Maria Manuela Batista. Para ela, uma notícia como a do Correio da Manhã seria fruto de uma visão estereotipada por parte da mídia de Portugal que, segundo afirmou, posiciona o país como o centro da lusofonia e como potencial influenciador de suas ex-colônias, retratando os demais países lusófonos como um "jardim colonial" – uma extensão emocional de um passado de conquistas. Seria herança de um pensamento muito estimulado na era do ditador Antonio de Oliveira Salazar (1889-1970).
Moisés Martins, diretor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade do Minho, destacou em sua apresentação que a lusofonia não se prende a estereótipos e pode ajudar na formação de uma comunidade transnacional, com propósitos político-culturais.
União nacional
É certo afirmar que ainda há um sentimento forte em Portugal em relação ao seu passado histórico, mas é exagero dizer que há uma mídia com visão ainda imperialista. Os portugueses se orgulham das conquistas que tiveram no mundo e do fato de terem levado a língua de sua pátria a vários continentes. Isso tem uma certa influência nos jornais, mas são simbologias mais voltadas para o sentimento de nação de passado glorioso do que uma tentativa de subordinar as ex-colônias. Mesmo porque Portugal é muito aberto às inovações linguísticas por que tem passado a língua portuguesa no mundo.
As telenovelas brasileiras são um exemplo da aceitação da influência vinda de um país que já pertenceu aos portugueses. Desde a década de 1970 elas são exibidas em terras lusitanas sem dublagem ou legendas, e agregam novos vocábulos ao cotidiano de Portugal.
É o contrário do que acontece no Brasil, segundo disseram representantes brasileiros no Congresso. Para eles, a imprensa no país não está atenta à existência de um mundo lusófono, tendo desenvolvido uma linguagem com características próprias e independentes.
Já nos países africanos onde a língua portuguesa é oficial – Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe – o português ainda enfrenta obstáculos para se firmar como língua de união nacional. Nesses locais predominam as línguas nativas que coexistem e reforçam valores tribais. O mesmo ocorre no asiático Timor Leste.
Papel primordial
Em Angola, por exemplo, existem 49 dialetos e 19 línguas. As rádios, que compõem a maior força midiática do país, fazem as transmissões em línguas nativas. Em Moçambique, o português é a língua materna de apenas 10% da população – ou outros 90% dos habitantes têm um dos 23 idiomas nativos como língua principal. Em Timor, a escolha pelo português como língua oficial foi uma decisão política, pois era um idioma trazido por estrangeiros e não causaria conflitos como os que ocorreriam se a língua de alguma região local fosse adotada em detrimento de outras. O idioma mais falado pelos timorenses é o tétum.
Estimativas revelam que em todo mundo 200 milhões de pessoas falam português, a maioria brasileiros. Portanto o Brasil tem um papel primordial na construção de um espaço lusófono. Mas o que se percebe é um distanciamento do país do debate sobre a questão, que é praticamente ausente da mídia.
Em tempo: a Academia Brasileira de Letras editou um Vocabulário Ortográfico com novas palavras, que inclui adaptações de vários termos em inglês. É o novo português do backup, byte e do delete.
(*) Jornalista e pesquisador de mídias da Universidade do Minho, em Portugal
segunda-feira, janeiro 02, 2006
MARCAS DO QUE SE FOI, SONHOS QUE VAMOS TER
Sergio Denicoli
Tchhhhhhhhhhhiiiiiiiiiii buuuummmmmm!!! Enquanto os fogos anunciavam o ano novo as luzes refletiam no rosto das pessoas, deixando-as mais coloridas. Com os pés sendo beijados pelas calmas ondas do mar eu pensava - estampando um sorriso de canto de boca e olhos marejados pela magia do poder recomeçar - que acabava ali 2005.
Agora estamos num novo número 2-0-0-6. É um número par, divisível portanto em partes iguais.
Mas não havia intensidades iguais, nem alegrias iguais, nem esperanças iguais. Então onde está a igualdade que me despertou a atenção ao anunciar de um ano justo, pelo menos no aspecto numérico?
A resposta veio pelas flores oferecidas à rainha das águas no tão tradicional ritual da virada neste Brasil de miscigenação. As flores eram embaladas pelas ondas e insistiam em não sair da praia, como que cumprindo a missão de deixar aquele momento enfeitado.
Eram formas, cores e cheiros variados, que juntos formavam um cenário lindo de festa. Era a resposta: a igualdade está na diferença.
Eu não carregava flores, mas estava carregado de boas energias. Mais do que rápido coloquei as mão na água. Oferecia a minha parte ao ano que iniciava. Distribuía naquele mar que une todos os continentes um pouco da paz de espírito que me acometeu.
Estendi as mãos à luta pela adição das diferenças na busca pela igualdade. Desejei que os rostos coloridos mantivessem as cores variadas que deixavam os sorrisos mais reluzentes.
O sorriso faz a diferença. A esperança faz a diferença. A igualdade faz a diferença. O amor faz a diferença. Quevedo disse que “o que põe os homens a perder é quererem ser diferentes de si mesmos”.
Sejamos portanto iguais a nós mesmos e diferentes ao ponto de poder ter algo para trocar.
Que o lema de 2006 seja como aquela música que sempre anuncia a chegada de um novo ano: “quem quiser ter um amigo que me dê a mão”.
Tchhhhhhhhhhhiiiiiiiiiii buuuummmmmm!!! Enquanto os fogos anunciavam o ano novo as luzes refletiam no rosto das pessoas, deixando-as mais coloridas. Com os pés sendo beijados pelas calmas ondas do mar eu pensava - estampando um sorriso de canto de boca e olhos marejados pela magia do poder recomeçar - que acabava ali 2005.
Agora estamos num novo número 2-0-0-6. É um número par, divisível portanto em partes iguais.
Mas não havia intensidades iguais, nem alegrias iguais, nem esperanças iguais. Então onde está a igualdade que me despertou a atenção ao anunciar de um ano justo, pelo menos no aspecto numérico?
A resposta veio pelas flores oferecidas à rainha das águas no tão tradicional ritual da virada neste Brasil de miscigenação. As flores eram embaladas pelas ondas e insistiam em não sair da praia, como que cumprindo a missão de deixar aquele momento enfeitado.
Eram formas, cores e cheiros variados, que juntos formavam um cenário lindo de festa. Era a resposta: a igualdade está na diferença.
Eu não carregava flores, mas estava carregado de boas energias. Mais do que rápido coloquei as mão na água. Oferecia a minha parte ao ano que iniciava. Distribuía naquele mar que une todos os continentes um pouco da paz de espírito que me acometeu.
Estendi as mãos à luta pela adição das diferenças na busca pela igualdade. Desejei que os rostos coloridos mantivessem as cores variadas que deixavam os sorrisos mais reluzentes.
O sorriso faz a diferença. A esperança faz a diferença. A igualdade faz a diferença. O amor faz a diferença. Quevedo disse que “o que põe os homens a perder é quererem ser diferentes de si mesmos”.
Sejamos portanto iguais a nós mesmos e diferentes ao ponto de poder ter algo para trocar.
Que o lema de 2006 seja como aquela música que sempre anuncia a chegada de um novo ano: “quem quiser ter um amigo que me dê a mão”.
quinta-feira, novembro 10, 2005
O ESTOPIM FRANCÊS
Sergio Denicoli, de Portugal
Alerta máximo: explodiu o problema da imigração que há anos alimentava o ódio e o preconceito velado na Europa ocidental. A velha intolerância étnica e cultural foi infiltrada nas cores das bandeiras de cada país que num passado recente necessitou de mão-de-obra estrangeira. O que acontece na França é uma luta de franceses contra franceses. São cidadãos filhos de imigrantes contra o governo feito para os “nativos”.
E não é uma questão religiosa que envolve os “terroristas islâmicos”, como diria a maniqueísta imprensa ocidental fortemente influenciada pelos ideais norte-americanos. É um problema social, que engloba muçulmanos, ortodoxos, católicos... são pessoas de origem africana, latino-americana e europeus do leste.
Inicialmente os países abriram as portas, deram incentivos sociais, casas para morar e os imigrantes aceitaram fazer o trabalho que os “nativos” não queriam. Lavavam banheiros, serviam mesas, limpavam casas de famílias e avisavam aos conterrâneos: “venham, aqui a vida é melhor!”. E a propaganda atraiu milhares de pessoas que mudaram de pátria para viver ilegalmente, trabalhando em um mercado prostituído que explorava os funcionários sem pagar benefícios. E foram se fixando, e foram procriando, e surgiram novas gerações. Cidadãos de países com os quais não se identificam e onde sofrem discriminação.
Paris em chamas
No dia 27 de Outubro, dois adolescentes de origem africana – de 15 e 17 anos - morreram eletrocutados após se esconderem dentro de um transformador de energia depois de serem, supostamente, perseguidos pela polícia na periferia de Paris. Foi o estopim.
A partir daí, iniciou-se uma onda de violência em toda a França que já dura quase duas semanas e tem como resultado milhares de carros incendiados, explosões em estabelecimentos comerciais, centenas de presos, uma pessoa morta, e uma crise no governo francês. Para muitos, o ministro do interior da França deixou transparecer todo o preconceito que insuflou a revolta, ao chamar os manifestantes de “escória”. O ministro também admitiu que o problema que originou os distúrbios foram negligenciados nos últimos 30 anos. Já o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, garantiu que a ordem será restabelecida.
No entanto, para que a “ordem” seja implantada definitivamente é preciso mudar a visão etnocêntrica que está presente no seio do pensamento ocidental europeu. Será preciso ainda enfrentar o problema dessas minorias subjugadas que afetam a entrada delas no mercado de trabalho. O desemprego nos subúrbios franceses é o dobro do registrado em outras regiões. Atinge 20%, chegando até 40% entre os jovens.
E se o incêndio hoje atinge a França, o fogo pode espalhar-se rapidamente para outros países, onde o que não falta é combustível para atear a revolta de quem é subjugado e discriminado.
Alerta máximo: explodiu o problema da imigração que há anos alimentava o ódio e o preconceito velado na Europa ocidental. A velha intolerância étnica e cultural foi infiltrada nas cores das bandeiras de cada país que num passado recente necessitou de mão-de-obra estrangeira. O que acontece na França é uma luta de franceses contra franceses. São cidadãos filhos de imigrantes contra o governo feito para os “nativos”.
E não é uma questão religiosa que envolve os “terroristas islâmicos”, como diria a maniqueísta imprensa ocidental fortemente influenciada pelos ideais norte-americanos. É um problema social, que engloba muçulmanos, ortodoxos, católicos... são pessoas de origem africana, latino-americana e europeus do leste.
Inicialmente os países abriram as portas, deram incentivos sociais, casas para morar e os imigrantes aceitaram fazer o trabalho que os “nativos” não queriam. Lavavam banheiros, serviam mesas, limpavam casas de famílias e avisavam aos conterrâneos: “venham, aqui a vida é melhor!”. E a propaganda atraiu milhares de pessoas que mudaram de pátria para viver ilegalmente, trabalhando em um mercado prostituído que explorava os funcionários sem pagar benefícios. E foram se fixando, e foram procriando, e surgiram novas gerações. Cidadãos de países com os quais não se identificam e onde sofrem discriminação.
Paris em chamas
No dia 27 de Outubro, dois adolescentes de origem africana – de 15 e 17 anos - morreram eletrocutados após se esconderem dentro de um transformador de energia depois de serem, supostamente, perseguidos pela polícia na periferia de Paris. Foi o estopim.
A partir daí, iniciou-se uma onda de violência em toda a França que já dura quase duas semanas e tem como resultado milhares de carros incendiados, explosões em estabelecimentos comerciais, centenas de presos, uma pessoa morta, e uma crise no governo francês. Para muitos, o ministro do interior da França deixou transparecer todo o preconceito que insuflou a revolta, ao chamar os manifestantes de “escória”. O ministro também admitiu que o problema que originou os distúrbios foram negligenciados nos últimos 30 anos. Já o primeiro-ministro, Dominique de Villepin, garantiu que a ordem será restabelecida.
No entanto, para que a “ordem” seja implantada definitivamente é preciso mudar a visão etnocêntrica que está presente no seio do pensamento ocidental europeu. Será preciso ainda enfrentar o problema dessas minorias subjugadas que afetam a entrada delas no mercado de trabalho. O desemprego nos subúrbios franceses é o dobro do registrado em outras regiões. Atinge 20%, chegando até 40% entre os jovens.
E se o incêndio hoje atinge a França, o fogo pode espalhar-se rapidamente para outros países, onde o que não falta é combustível para atear a revolta de quem é subjugado e discriminado.
segunda-feira, novembro 07, 2005
A IMPERFEIÇÃO PERFEITA E O MEFISTOTÉLICO E METAFÓRICO MUNDO DA ECONOMIA
Emerson Cabral
São Francisco de Assis foi quem me deu a luz para escrever este artigo. E isso não tem nada a ver com uma mudança de comportamento religioso, embora meus amigos católicos fervorosos possam, mesmo que por um breve instante, ficar contentes. É que sobre a mesa do escritório, por trás do computador, há uma estatueta do cujo. Dessas de barro, típicas do artesanato nordestino. Olhando para o santo pensei no Big Boss e passei a refletir sobre o universo. E a concluir o óbvio. A imperfeição é perfeita. E perfeito mesmo, só os economistas.
O universo e todas as coisas só estão aí porque não há o que vou batizar de nano-harmonia, expressão natimorta que nos remete às mais recentes descobertas científicas e também a uma abreviação livre de na-na-ni-na-não. No micro, tudo está em desequilíbrio, em situação de caos e desarmonia. Tomemos como exemplo o micro universo do homem, esse ser que não ouso descrever. Se todos saíssemos dos ventres maternos qual biscoito água e sal, ou seja, tudo igual, que seria do pobre Pitanguy e sua legião de seguidores com bombas de lipo-sucção em punho? Pobre do dentista na hipótese da inexistência das cáries! E o que dizer então da fonoaudióloga do Palothi, quer dizer, Palocci? O mundo seria tão chato.
Por falar em Palocci, eis aí uma categoria acima dessa profusão catastróficas de idéias. Pois alguém já viu algum economista que tenha cometido um erro? São a mais perfeita criatura divina a habitar a face da Terra, talvez os únicos seres nano-harmônicos existentes. Quando um deles, por um descuido toma uma decisão ainda carregada de dúvidas - pois até Cristo teve dúvidas - outro, além- mar e trás-montes, tomará a decisão inversa, criando a junção do Yin e do Yang. É como uma espécie de pacto. Economistas agem de maneiras distintas em todas as partes do mundo para que, no frigir dos ovos, tomadas de decisões antagônicas se encaixem. Todas as medidas e pactos econômicos existem em oposição complementar. E assim, dois e dois sempre somarão quatro.
Até mesmo os mais incrédulos hão de concordar. Mesmo aqueles que, dedo em riste, relembram os pseudo-desastrosos planos econômicos de qualquer país de dimensões continentais da América do Sul, por exemplo! Pois se não fossem perfeitos os economistas, a soma no final da conta estaria errada e ela nunca está errada; o destino do dinheiro é que muda de endereço. Daí o pseudo.
Vejamos. Quando um país, cuja população só pensa em cerveja, carnaval e bunda mantém sua taxa básica de juros a níveis mefistofélicos meses a fio, por exemplo!, o que aconteceria com o Produto Nacional Bruto dessa nação? Assim mesmo, com letra maiúscula, porque PNB tem personalidade, nome e sobrenome.
Heim?! Os empresários do setor produtivo talvez aumentassem para três as sessões semanais ao divã e dois os comprimidos noturnos de Lexotan, mas os economistas (os governistas, claro!) diriam que esse país manterá contínuo e forte o jato do extintor na boca do dragão (a outra palavra terminada em “ão” é impronunciável nesses países). Não é perfeito!? Mesmo que a resposta à pergunta anterior seja uma palavra formada pelas letras q, u, e, d, a; na ordem que você achar melhor. Embora hipoteticamente o vice-presidente desse onírico país de vez em quando esperneie.
E se algum São Tomé, ainda insatisfeito com essa argumentação, sugerir que essa q, u, e, d, a pode levar o país a um processo de estagnação econômica seguida de desemprego? Os santos economistas iluminados pelo Grande Arquiteto haverão de encontrar uma explicação celeste, como a que se ouve em alguns países latino-americanos colonizados por portugueses, por exemplo! “É preciso atrair o capital externo para manter a níveis baixos o risco-país!”.E sabe porquê? Por que em um país qualquer famoso por queijos, chocolates e relógios haverá economistas de governo que façam exatamente o contrário. O dinheiro só muda de endereço. E os economistas continuam perfeitos.
São Francisco de Assis foi quem me deu a luz para escrever este artigo. E isso não tem nada a ver com uma mudança de comportamento religioso, embora meus amigos católicos fervorosos possam, mesmo que por um breve instante, ficar contentes. É que sobre a mesa do escritório, por trás do computador, há uma estatueta do cujo. Dessas de barro, típicas do artesanato nordestino. Olhando para o santo pensei no Big Boss e passei a refletir sobre o universo. E a concluir o óbvio. A imperfeição é perfeita. E perfeito mesmo, só os economistas.
O universo e todas as coisas só estão aí porque não há o que vou batizar de nano-harmonia, expressão natimorta que nos remete às mais recentes descobertas científicas e também a uma abreviação livre de na-na-ni-na-não. No micro, tudo está em desequilíbrio, em situação de caos e desarmonia. Tomemos como exemplo o micro universo do homem, esse ser que não ouso descrever. Se todos saíssemos dos ventres maternos qual biscoito água e sal, ou seja, tudo igual, que seria do pobre Pitanguy e sua legião de seguidores com bombas de lipo-sucção em punho? Pobre do dentista na hipótese da inexistência das cáries! E o que dizer então da fonoaudióloga do Palothi, quer dizer, Palocci? O mundo seria tão chato.
Por falar em Palocci, eis aí uma categoria acima dessa profusão catastróficas de idéias. Pois alguém já viu algum economista que tenha cometido um erro? São a mais perfeita criatura divina a habitar a face da Terra, talvez os únicos seres nano-harmônicos existentes. Quando um deles, por um descuido toma uma decisão ainda carregada de dúvidas - pois até Cristo teve dúvidas - outro, além- mar e trás-montes, tomará a decisão inversa, criando a junção do Yin e do Yang. É como uma espécie de pacto. Economistas agem de maneiras distintas em todas as partes do mundo para que, no frigir dos ovos, tomadas de decisões antagônicas se encaixem. Todas as medidas e pactos econômicos existem em oposição complementar. E assim, dois e dois sempre somarão quatro.
Até mesmo os mais incrédulos hão de concordar. Mesmo aqueles que, dedo em riste, relembram os pseudo-desastrosos planos econômicos de qualquer país de dimensões continentais da América do Sul, por exemplo! Pois se não fossem perfeitos os economistas, a soma no final da conta estaria errada e ela nunca está errada; o destino do dinheiro é que muda de endereço. Daí o pseudo.
Vejamos. Quando um país, cuja população só pensa em cerveja, carnaval e bunda mantém sua taxa básica de juros a níveis mefistofélicos meses a fio, por exemplo!, o que aconteceria com o Produto Nacional Bruto dessa nação? Assim mesmo, com letra maiúscula, porque PNB tem personalidade, nome e sobrenome.
Heim?! Os empresários do setor produtivo talvez aumentassem para três as sessões semanais ao divã e dois os comprimidos noturnos de Lexotan, mas os economistas (os governistas, claro!) diriam que esse país manterá contínuo e forte o jato do extintor na boca do dragão (a outra palavra terminada em “ão” é impronunciável nesses países). Não é perfeito!? Mesmo que a resposta à pergunta anterior seja uma palavra formada pelas letras q, u, e, d, a; na ordem que você achar melhor. Embora hipoteticamente o vice-presidente desse onírico país de vez em quando esperneie.
E se algum São Tomé, ainda insatisfeito com essa argumentação, sugerir que essa q, u, e, d, a pode levar o país a um processo de estagnação econômica seguida de desemprego? Os santos economistas iluminados pelo Grande Arquiteto haverão de encontrar uma explicação celeste, como a que se ouve em alguns países latino-americanos colonizados por portugueses, por exemplo! “É preciso atrair o capital externo para manter a níveis baixos o risco-país!”.E sabe porquê? Por que em um país qualquer famoso por queijos, chocolates e relógios haverá economistas de governo que façam exatamente o contrário. O dinheiro só muda de endereço. E os economistas continuam perfeitos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)